História, Cultura e Vida: O legado das águas em Lauro de Freitas

História, Cultura e Vida: O legado das águas em Lauro de Freitas

O Município de Lauro de Freitas tem uma relação muito forte com as águas. Sendo um dos menores em extensão, dos 417 do Estado da Bahia, tem entretanto uma condição bastante privilegiada no que concerne a recursos hídricos, pois, além de banhado pelo Oceano Atlântico, é cortado por diversos cursos d’água, destacando-se os Rios Joanes, Ipitanga, Sapato, Picuaia e Itinga dentre outros.

O Rio Ipitanga é muito importante do ponto de vista histórico, pois aqui tudo começou com ele. Segundo pesquisas, tudo leva a crer que foi devido às suas águas avermelhadas que os Índios Tupinambás que aqui viviam batizaram a localidade de Ipitanga, que quer dizer Rio de Águas Vermelhas.

Com a chegada dos portugueses muitos séculos depois e a consequente transformação das aldeias indígenas em aldeias de catequese, como era costume entre eles, um santo logo foi escolhido para ser o padroeiro da localidade, o que coube aqui a Santo Amaro o privilégio. Mas a referência ao rio foi mantida, passando a nossa Ipitanga, a ser denominada Freguesia de Santo Amaro do Ipitanga, que foi elevada à condição de paróquia em 1608.

À margem do rio foi erguida a Igreja Matriz e em torno dela foi se formando a povoação que se transformou no prospero Município de Lauro de Freitas, atualmente o 7° mais populoso do estado e uma das maiores forças econômicas desta unidade da federação.

O Ipitanga nasce no Município de Simões Filho, corta parte de Salvador, o centro da cidade de Lauro de Freitas e desemboca no Rio Joanes, no local aonde foi construído ao lado, o imponente condomínio que tem por nome Encontro das Águas, em alusão justamente a esse belo acidente geográfico.

Quanto ao Joanes, já no longínquo ano de 1578, há um registro histórico no livro do Padre Simão de Vasconcelos, Vida do Venerável José de Anchieta, que se refere a um célebre milagre atribuído ao famoso Padre Anchieta, fundador da Cidade de São Paulo, aonde ele teria salvado um outro padre e um cavalo, que se debatiam entre as águas bravias do rio após uma enchente.

Vale ainda ressaltar que no importantíssimo livro Tratado Descritivo do Brasil – 1586, Gabriel Soares de Sousa cita-o, comparando-o ao Rio Zezere, em Lisboa. Não poderíamos deixar de citar também o memorável Levante do Rio Joanes de 28 de fevereiro de 1814, quando dezenas de negros escravizados morreram nessa insurreição.

Do ponto de vista cultural, tanto um rio como o outro originaram grandes manifestações: como as Festa do Padroeiro Municipal Santo Amaro de Ipitanga e a do Padroeiro dos Pescadores e Marisqueiras de Buraquinho, São Francisco de Assis, cujo ponto alto dessa última é a Procissão Fluvial ao longo do Joanes.

É extensa a lista de outras manifestações católicas e afro-brasileiras, notadamente do bairro de Portão, principal comunidade ribeirinha do município.

Em 1999 foi criada a APA-Joanes/Ipitanga, pelo Governo do Estado, tendo dentre os seus principais objetivos o de proteger as nascentes desses dois rios responsáveis pelo abastecimento de 40% da água de Salvador e cidades da Região Metropolitana.

O projeto de macrodrenagem dos Rios Joanes e Ipitanga chega em boa hora, contribuindo consideravelmente para o problema dos alagamentos que tantos prejuízos causam ao empresariado e aos munícipes como um todo, dificultando o trânsito e a mobilidade urbana.

Não bastasse esses benefícios, a dragagem do rio vai proporcionar novas opções de lazer. Com a conclusão dessa etapa e o investimento maciço em saneamento básico paralelos a um programa de educação ambiental, Lauro de Freitas tem tudo para figurar entre principais cidades do chamado primeiro mundo.

Gildásio Freitas

Historiador, escritor e ex- Conselheiro da APA Joanes/Ipitanga